Como apresentar um mês ruim sem perder o cliente
Fato, causa, plano e pedido: a estrutura para explicar um resultado ruim ao cliente com número, evidência e próximo passo, sem desculpa nem susto.

Sumário
Um mês ruim não faz você perder o cliente. O que faz perder é o cliente descobrir o problema antes de você, ou ouvir uma explicação sem número e sem plano. Apresente o mês ruim em quatro partes, nessa ordem: o fato, a causa, o plano e o pedido. Cada parte responde a uma pergunta que o cliente vai fazer de qualquer forma.
O cliente perdoa o número, não a surpresa
Todo gestor de mídia vai ter meses ruins. Leilão mais caro, uma promoção do concorrente, um site fora do ar, uma tag de compra que parou de disparar. O cliente sabe disso, mesmo que não diga. O que ele não sabe é se você também sabe.
Por isso a primeira regra vem antes do relatório: se o mês está indo mal, avise quando perceber, não no fechamento. Uma mensagem curta no meio do mês ("as vendas atribuídas estão 20% abaixo do ritmo da meta; já estamos olhando, mando a leitura completa na sexta") muda a conversa inteira. No dia do relatório, o cliente já está esperando a explicação, e não sendo pego por ela.
Quando o problema aparece primeiro para o cliente, no painel da loja ou no extrato do banco, qualquer explicação depois soa como defesa. A mesma frase que seria uma análise vira uma desculpa.
Fato: diga o número antes de explicar
Comece pelo número, sem adjetivo e sem atenuar. A tentação é abrir pelo contexto ("o mercado está difícil", "foi um mês atípico"). Isso faz o cliente esperar o pior enquanto você fala. Diga primeiro o que aconteceu e deixe a explicação para o segundo bloco.
Veja um exemplo hipotético, com números inventados só para ilustrar. Uma loja on-line investiu o mesmo valor em mídia nos dois meses:
Investimento em mídia
- Mês anterior
- R$ 30.000
- Mês
- R$ 30.000
- Variação
- 0,0%
Receita atribuída
- Mês anterior
- R$ 105.000
- Mês
- R$ 78.000
- Variação
- −25,7%
ROAS
- Mês anterior
- 3,50
- Mês
- 2,60
- Variação
- −25,7%
Pedidos
- Mês anterior
- 2.100
- Mês
- 1.560
- Variação
- −25,7%
Ticket médio
- Mês anterior
- R$ 50
- Mês
- R$ 50
- Variação
- 0,0%
Receita contra a meta de R$ 100.000
- Mês anterior
- 105%
- Mês
- 78%
- Variação
- −27 pontos percentuais
| Métrica | Mês anterior | Mês | Variação |
|---|---|---|---|
| Investimento em mídia | R$ 30.000 | R$ 30.000 | 0,0% |
| Receita atribuída | R$ 105.000 | R$ 78.000 | −25,7% |
| ROAS | 3,50 | 2,60 | −25,7% |
| Pedidos | 2.100 | 1.560 | −25,7% |
| Ticket médio | R$ 50 | R$ 50 | 0,0% |
| Receita contra a meta de R$ 100.000 | 105% | 78% | −27 pontos percentuais |
As contas conferem: 105.000 ÷ 30.000 = 3,50 e 78.000 ÷ 30.000 = 2,60. A receita caiu 27.000 ÷ 105.000 ≈ 25,7%, e os pedidos, 540 ÷ 2.100 ≈ 25,7%. O ticket médio ficou em R$ 50 nos dois meses (105.000 ÷ 2.100 e 78.000 ÷ 1.560). ROAS (return on ad spend, retorno sobre o investimento em anúncios) é a receita dividida pelo gasto.
A frase de abertura fica assim: "Em novembro a receita atribuída foi de R$ 78 mil, 78% da meta e 26% abaixo de outubro, com o mesmo investimento". Uma frase, três números, nenhuma desculpa.
A tabela já diz algo útil: o ticket médio não mudou. A queda veio do número de pedidos, e não do valor de cada pedido. Isso estreita a busca pela causa antes mesmo de você começar a investigar.
Causa: separe o que você sabe do que você acha
O cliente quer saber por quê. A pior resposta é uma lista de seis motivos possíveis sem peso nenhum, porque ela mostra que você não sabe. A segunda pior é uma certeza que você não tem.
Escreva a causa em duas partes:
- O que está comprovado, com a evidência ao lado. Por exemplo: "a tag de compra do site ficou fora do ar do dia 12 ao dia 14, depois da troca do tema da loja; nesses três dias o GA4 registrou zero compras, enquanto a plataforma da loja registrou pedidos normalmente".
- O que ainda é hipótese, dito como hipótese e com o jeito de conferir. Por exemplo: "hipótese: o custo por clique subiu porque um concorrente entrou nos mesmos termos; vamos conferir no relatório de leilão desta semana".
Na primeira parte, as ferramentas das plataformas ajudam a sair do palpite. O Google Ads tem as explicações, que mostram fatores por trás de grandes mudanças de desempenho, como lances, orçamento e conversões. Elas estão disponíveis para campanhas de pesquisa, app, Performance Max, Demand Gen, display e vídeo. Para aparecerem, o período não pode incluir o dia de hoje nem passar de 90 dias atrás, e os dois períodos comparados precisam ter o mesmo tamanho e ser seguidos.
Repare que uma quebra de medição muda a pergunta. Se parte da queda é tag fora do ar, as vendas aconteceram e só não foram contadas. O resultado real foi menos ruim que o relatório mostra, mas você não pode simplesmente somar um número estimado. Diga o que faltou medir, de quando a quando, e mostre o dado da loja como referência separada, sem misturar com a receita atribuída.
Assuma o que foi seu
Se a causa foi uma decisão da agência (um criativo que você trocou, uma campanha que você pausou, um lance que você mudou), diga isso primeiro e com clareza. O cliente costuma aceitar bem o erro assumido com plano. O que ele não aceita é descobrir depois que o motivo era seu e foi omitido.
O contrário também vale: se a causa foi do cliente (estoque acabou, o site caiu, a promoção não foi avisada), diga sem acusar. Fato e data bastam. O objetivo é evitar que se repita, e não ganhar a discussão.
Plano: três ações, cada uma com como medir
Depois da causa, o cliente pergunta "e agora?". O plano responde com no máximo três ações. Mais que isso vira lista de desejos e dilui a responsabilidade.
Cada ação precisa de quatro coisas: o que será feito, quem faz, até quando e qual número vai mostrar se funcionou. No exemplo:
- 1.Colocar um alerta para dias sem compra registrada. Dono: agência. Data: dia 5. Sinal de que deu certo: um dia sem compras registradas gera aviso no mesmo dia.
- 2.Avisar a agência antes de qualquer troca de tema ou de checkout. Dono: cliente. Data: a partir de agora. Sinal: nenhuma troca entra no ar sem teste de compra.
- 3.Testar dois criativos novos nas campanhas que mais perderam pedidos. Dono: agência. Data: dia 10. Sinal: pedidos dessas campanhas de volta ao ritmo do mês anterior até o dia 25.
O número de cada ação é o que transforma o plano em compromisso. No relatório do mês seguinte, você abre essa lista e diz o que aconteceu com cada item. Quem faz isso duas vezes seguidas raramente precisa defender o trabalho na terceira.
Pedido: termine com uma decisão
Um mês ruim quase sempre pede alguma decisão do cliente: manter a verba, reduzir, mudar a meta, aprovar um teste, liberar acesso a um dado. Se você não pedir, a reunião acaba sem decisão e o mês seguinte começa no mesmo lugar.
Escreva o pedido de forma que a resposta seja sim ou não: "Podemos manter o investimento de R$ 30.000 em dezembro e reavaliar no dia 15, quando o alerta e os criativos novos já estiverem rodando?". Uma pergunta aberta ("o que você acha?") devolve o problema ao cliente.
Se o mês ruim não pede nenhuma decisão, diga isso também: "não precisamos mudar nada no orçamento; o plano acima é só execução da agência". Isso mostra que você tem controle sobre a situação.
O que não fazer
Alguns hábitos comuns pioram a conversa, mesmo com boa intenção:
- Trocar a métrica. Se o combinado era receita e a receita caiu, não abra pelo alcance que subiu. O cliente percebe a troca e passa a desconfiar das outras métricas.
- Esconder a meta. Tirar a coluna da meta no mês ruim tira dela o valor nos meses bons.
- Culpar o algoritmo. "A Meta mudou o algoritmo" não é causa, é falta de causa. Se você não sabe, diga que ainda está investigando e quando volta com a resposta.
- Prometer recuperar tudo no mês seguinte. Prometa as ações e os sinais, e não um número que depende do mercado.
- Mandar o PDF sem conversa. Um mês ruim merece pelo menos uma mensagem ou uma ligação curta junto com o relatório.
Registre o mês para o próximo relatório
Daqui a seis meses, ninguém vai lembrar por que novembro caiu. O gráfico vai mostrar o vale, e a pergunta vai voltar. Por isso registre a causa onde o número mora.
No GA4, as anotações marcam uma data ou um período nos gráficos de linha, com título de até 60 caracteres e descrição de até 150. Elas aparecem em todos os relatórios com gráfico de linha da propriedade, e quem tem papel de Analista ou acima pode criar, editar e apagar. Uma anotação como "Tag de compra fora do ar, 12 a 14/11" evita que a mesma queda seja explicada de novo, ou mal explicada, no ano seguinte.
No Relator Digital, a linha do tempo do cliente guarda anotações como lançamento, mudança de orçamento e promoção, que aparecem nos gráficos, e registra sozinha alertas, relatórios enviados e fontes conectadas. O cliente convidado vê essa linha do tempo no portal, então a explicação do mês ruim fica no mesmo lugar que o número.
Como aplicar
- 1.Combine com cada cliente a meta e o ritmo esperado do mês, para saber cedo quando algo sai do trilho.
- 2.No meio do mês, se o ritmo estiver abaixo do esperado, mande uma mensagem curta com o número e a data em que volta com a leitura completa.
- 3.Abra o relatório com uma frase de fato: o número, a meta e o mês anterior.
- 4.Escreva a causa em duas listas: comprovado, com evidência, e hipótese, com o jeito de conferir.
- 5.Limite o plano a três ações com dono, data e o número que mostra se funcionou.
- 6.Termine com um pedido que se responda com sim ou não.
- 7.Anote a causa nos gráficos (GA4 ou a sua ferramenta de relatório) e abra o relatório seguinte conferindo o plano.
Fontes
- Google Ads: sobre as explicações — o que as explicações mostram, tipos de campanha aceitos e regras de período (consultado em 27/10/2026).
- Google Analytics: criar e gerenciar anotações — limites de caracteres, visibilidade nos relatórios e papéis necessários (consultado em 27/10/2026).

Sobre o autor
João Vitor Moitinho
João Vitor Moitinho é fundador do Relator Digital. Engenheiro de computação, trabalha com growth, mensuração e martech, e escreve aqui sobre o que aprende construindo relatórios para agências de performance.
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